Contos do Átrio Rotating Header Image

incesto

“Precisamos descobrir por que alguns comportamentos são tolerados e outros não”

"Lot e suas filhas", Hendrik Goltzius (1616)

Uma coisa que nos traz tanta repulsa, asco e uma leve sensação de que não vai dar em coisa boa, é o incesto. Ninguém acha que o afeto consensual entre um pai e uma filha deve ser reconhecido legalmente pela sociedade como casamento da mesma forma que alguns desejam para a relação homossexual.

Pelo menos era o que eu pensava, até eu ver que a Suíça já não considera crime relações sexuais consensuais entre parentes de segundo grau (por exemplo, entre tia e sobrinho), e propõe há alguns anos legalizar também aquelas entre parentes de primeiro grau: entre irmãos e entre pais e filhos.

E a Suíça seria pioneira nisso? Não, pois a China, França, Israel, Costa do Marfim, Holanda, Rússia, Espanha e Turquia já legalizaram o incesto consensual, segundo o relatório do Max Planck Institute, na Alemanha.

Vi essas informações numa notícia antiga sobre um professor da Universidade de Columbia que foi preso por manter relações sexuais (consensuais, ressaltara seu advogado) com a filha de 24 anos. Me admirou que o advogado do professor, apesar do cuidado em não tocar nos intricados conceitos de psicologia, fez uma pergunta acertadíssima: ”Homossexuais são liberados para fazer o que quiserem em sua própria casa. Em que isso (o incesto) é tão diferente? Precisamos descobrir por que alguns comportamentos são tolerados e outros não.”

Assim, com simplicidade, o advogado tocou na ferida e, talvez sem perceber, respondeu a própria pergunta. Sob os critérios modernos, que desafiam a física como as histórias fantásticas, não há qualquer diferença entre esses comportamentos. A busca pela diferença de parâmetros soou tão surreal para o advogado quanto a busca pelo Santo Graal. Mas o mundo moderno nunca irá descobrir a razão dessa diferença assim como nunca encontraria o Graal. Como os cavaleiros daquela busca eterna, a modernidade procuraria no lugar errado, onde a verdade não existe. Se ele quiser encontrar a razão pela qual incestos são proibidos e monogamia não, e uniões homossexuais (ainda) não são a mesma coisa que casamento, deverá separar novamente o real do imaginário e empreender a busca entre os contos de fadas, onde a verdade é óbvia e banal como vencer um dragão.

Há quem diga que o que impede o incesto é a lei e o tabu social. Não poderiam estar mais errados. Num mundo que rejeita qualquer formalização de parâmetro em nome da liberdade do afeto, tabus sociais e proibições legais não deviam fazer nem cócegas à aceitação de um comportamento consensual e afetuoso e, mais importante, feito no império da liberdade individual entre quatro paredes. Não, o limite não é o tabu nem a lei; o tabu que proibia o homossexualismo teve vida breve como neve ao sol, e a simples existência de propostas de legalização do incesto já provam a impotência das leis e dos vetos sociais. Eles são como a moda, passam e, no andar da carruagem da história, nunca impediram nada.

O que impede o incesto (e a bigamia, a pedofilia e, em menor grau, quase esquecido, o adultério) é a verdade incômoda, persistente, de que todos nascemos de um homem e uma mulher. A verdade que gera o tabu tem mais força do que o próprio tabu. E todo o esforço do mais inveterado e aloprado materialista para negá-la só irá reafirmá-la, pois ela é uma realidade material, não moral. Tudo o que temos como elementar nas relações entre as pessoas — numa palavra, a família — é a consequência óbvia dessa verdade.

Quando disse antes que se o parâmetro é o afeto entre duas pessoas, nenhuma forma de afeto deveria ser proibia, pensei que estivesse argumentando ao absurdo. Errei: se a poligamia e o incesto já são legalizados em vários países, o argumento ao absurdo não é mais absurdo, mas um simples argumento fático e concreto.