
Foi só eu chegar no Uruguai que o Senado em Montevidéu aprovou um projeto de lei que permite o casamento entre homossexuais. Para virar lei, o projeto agora precisa ser aprovado na Câmara (o que está previsto para 15 de abril) e ser sancionado pelo presidente Mujica.
A vitória de 23 votos a favor e 8 contra esse projeto, chamado de “projeto do matrimônio igualitário”, parece uma vitória singular em direitos civis, e assim tem sido retratada. Mas esse retrato esconde um debate que pouco tem a ver com o “matrimônio igualitário”, mas com família; e quando falamos de casamento, falamos necessariamente de família e não apenas de “duas pessoas que se amam”.
E este é o propósito do projeto velado nas notícias: ele trata de vários temas do código civil uruguaio, a maior parte deles relacionados ao direito dos filhos. A maior polêmica do debate, segundo o jornal El País do Uruguai, não foi a possibilidade de homossexuais se casarem, mas de adotarem filhos e assumirem paternidade. O casamento gay é a manchete, pois está na moda e chama a atenção, mas a salada de alterações de regras civis no que diz respeito à família é que deu a tônica às críticas.
Para dar um exemplo, o código civil do Uruguai dita regras diferentes, que podem ser vistas como mais ou menos modernas em comparação com a lei brasileira. Hoje, os uruguaios podem se casar com 16 anos, se homem, ou 12, se mulher; os filhos devem ser registrados com o sobrenome do pai primeiro, e depois o da mãe; e o divórcio só poderia ser solicitado “por vontade da mulher”. O projeto, então, propõe igualar a idade mínima de casamento para 16 anos, liberar a escolha da ordem dos sobrenomes com os quais registrar o primeiro filho (mas manter a mesma ordem para os filhos subsequentes, senão vira bagunça), e permitir a solicitação de divórcio para qualquer parte do casal. Além de questões de como e quando pagar pensão, quem mantém responsabilidade dos filhos e as regras de adoção, tudo isso no mesmo balaio do casamento homossexual.
São muitas questões sobre família — e obviamente sobre sociedade e quem o Estado deve proteger nessas confusas relações — de diferentes gravidades, discutidas juntas. É prudente resumir tudo isso à discussão de se um homem pode casar com outro, e se ambos podem adotar um filho? A rejeição a um projeto como esse daria a alguém o rótulo automático de homofóbico?
Esta questão maior, que pode ter passado despercebida, foi sintetizada pela impressão de que o projeto procurava legislar sobre muitos problemas entre duas pessoas que se relacionam — casamento, divórcio, idades, pensões, direitos de adoção — mas não se preocupou muito em como esses problemas afetam os filhos. Os filhos apareceram mais como um objeto de direitos, um problema a se resolver, do que sujeito de direitos, a parte mais frágil das famílias, a que deve ser protegida. E os filhos, as crianças, sempre são, ou deviam ser, o centro; a sociedade vem delas, o direito as trata com prioridade, a moral os protege. É para isso, mais do que para uma concepção etereamente definida como amor, que o Estado define uma família.
Afinal, já insisti aqui sobre este ponto; se os parâmetros para formar uma família fossem unicamente o amor e a liberdade, essa lei de matrimônio seria tudo, menos igualitária.
É sintomático ver que o projeto prevê a adoção por homossexuais, por meio de uma declaração formal de responsabilidade paternal, mas não diz nada sobre como essa responsabilidade recai sobre filhos anteriores à união homossexual, biológicos ou não. Os princípios que regem as pensões ainda olham para a mulher, como se ela fosse algo insuficiente (o que devia ser imediatamente taxado pelas feministas como machismo), e não para os filhos, a parte de fato dependente. O projeto é chamado de matrimônio igualitário, mas afetará mais a vida das crianças do que a dos adultos. Nele ainda se tipifica legalmente o adultério. Nele, a adoção é vista como uma forma de dar uma criança a uma família, quando na verdade é uma forma de dar uma família a uma criança. Nesses debates, ainda não se entendeu que falar de casamento é falar de família.



Mesmo no tempo de Cristo desprezaram a oportunidade de estarem no átrio. O átrio que era de acolhimento para alguém que dava ouvidos ao seu senso natural de justiça e verdade virou lugar de mercadores que só queriam fazer negócio. Não estavam nem aí para Deus, nem mesmo desconhecido. Não admira Jesus os ter expulsado na base da chicotada. As pessoas que criticam a firmeza doutrinal da Igreja dizendo que Jesus é amor e misericórdia, como se ela não o soubesse, devem ser os descendentes morais daquele pessoal que ficou revoltadinho porque o nazareno derrubou sua mercadoria no chão. Que voltem para o átrio, mas desta vez para fazer a coisa certa. Usem seu senso de justiça e um pouco de humildade para aprender. Talvez a Igreja Católica não seja aquilo que seu professor marxista de história ensinou no colégio com a desculpa cretina de ter o aval para falar de catolicismo porque foi coroinha num passado distante.
