
Imagem: National Geografic
É óbvio dizer que direito à vida é indispensável para gozar de qualquer outro direito que se possa imaginar, incluindo até o de se ter um funeral digno. Também é óbvio dizer que estar vivo ou não, assim como estar grávida ou não, é uma variável discreta, como dizem os engenheiros, a qual não admite gradações nem meios-termos: não existe meio-grávida e não existe meio-vivo, por mais deplorável que seja o estado em que se encontre alguém. É muito fácil dizer que é preferível a um miserável ter uma vida sofrível do que uma sobrevida detestável e desumana, mas é inimaginável, e de uma desumanidade diabólica, dizer que é melhor para o miserável que seja morto. Pois, além de toda a crueldade e falta de compaixão, matar o miserável não resolve nem o problema de sua vida desgraçada, nem o problema social da pobreza.
O direito à vida, portanto, é inegociável. Uma vez atestada a vida humana, seja ela qual for, qualquer critério para definir o gozo de seus direitos após aquele momento será um critério arbitrário e, portanto, cruel. Pois sempre haverá o risco, evidente ou não, de se cometer uma injustiça irreparável com alguém que, com um pouco mais de condições ou de tempo, ou mesmo deixando as coisas como são, poderia estar no mesmo lugar que você, vivendo plenamente. E isso pode ser provado principalmente pelos extremos da vida, extendidos pela medicina moderna. Situações que anos atrás eram de morte certa, hoje são tratados com a mesma indiferença da vida saudável e inconteste. Partos que eram dados como perdidos no tempo de nossas avós hoje são seguros e permitiram a vida tranquila de pessoas tão vivas quanto eu ou você. Já citei o caso dos bebês que nasceram às 23 semanas de gestação e continuam vivos e saudáveis, não obstante pudessem ser legalmente abortados em vários países, inclusive na Inglaterra, onde nasceram. Nesses países, o aborto é permitido porque, numa frase, aquilo que está no útero não é considerado gente — o que os fatos claramente desmentiram — do contrário seria equivalente a assassinato e, logo, um ato criminoso. Imagine-se o tanto de injustiça que se comete nesses países com pessoas que poderiam estar, hoje, tão vivas quanto aqueles bebês tão prematuros. Estes nascimentos foram fenômenos permitidos pela medicina; e, se ela desse condições a gestações inteiras de 9 meses fora do útero, esses bebês seriam tão vivos e humanos quanto os demais.
Evidentemente, o que tornou aqueles bebês humanos não foi a técnica médica. Ela só permitiu que continuassem vivos mesmo se retirados do útero na 23ª semana. Vê-se com tranquilidade que qualquer lapso de tempo para conceder o direito a vida a alguém é uma arbitrariedade, uma injustiça.
O mesmo pode ser dito a qualquer característica “acidental” àquele ente já vivo: doenças, deficiências, má-formação, condição social, gênero, etnia. Nada disso muda o fato auto-evidente de que aquele feto, bebê ou pessoa está vivo, ou correríamos o risco de definir critérios de vida ou morte diferentes para quem é pobre, asiático, negro, portador da Síndrome de Down ou mulher. As diferenças leis do aborto em vários países sugerem o absurdo de que ingleses só são considerados gente a partir da 24ª semana da gestação, enquanto no Brasil torna-se pessoa no momento da fecundação e, nos Estados Unidos (coitados), só se tiverem a sorte de saírem vivos do útero até o nono mês. Seria igualmente absurdo definir por lei (ou pior, por decisão judicial, como foi nos EUA) que negros tenham direito à vida depois dos brancos ou antes das mulheres. Ou se define a vida igualmente para todos, ou todos correm o risco iminente de sofrerem uma morte arbitrária.
O Supremo Tribunal Federal está para definir um desses critérios arbitrários. Na próxima quarta-feira, dia 11 de abril, julgará a legalidade do aborto de bebês com anencefalia, que costumam ter uma sobrevida curta. Os ministros assumiram a autoridade para definir um tempo e um critério de saúde para conceder a alguém o direito à vida.
Arbitrariedade não traz segurança. Da mesma forma que a medicina hoje permite partos mais cedos e óbitos mais tardios, poderá permitir no futuro vida mais longa aos anencéfalos. Ou pior ainda: a disposição da sociedade em aceitar pessoas com mais ou menos deficiências pode mudar, como já mudou, o que nada tem a ver com medicina. Assim como os espartanos matavam quem nascia sem um dedo — o que é completamente aceitável hoje — a sociedade pode achar inaceitável no futuro manter indivíduos com síndrome de Down, ou autistas, ou albinos, ou que só sobrevivam além da infância se passarem por cirurgias caras, como quem nasce com tetralogia de Fallot. E tais mudanças de regras só serão possíveis porque os critérios são arbitrários.
O ex-procurador geral da República Cláudio Fonteles deixou claro que o direito à vida não admite exceções, ou então não há direito. O parecer levado ao STF diz que o aborto de anencéfalos deve ser permitido porque eles tem sobrevida muito curta. Isso contraria a inviolabilidade da vida humana, garantida na Constituição (art. 5º). Se a vida é violável porque pode durar somente horas, então ela não é inviolável.
Um mundo obstinado em defender um “direito” tão ilógico baseado na utilidade de uma vida tão indefesa é mesmo muito entristecedor. É louvável defender uma vida que dure apenas horas, e ainda mais louvável quando este mundo não o entende, porque não mede a vida pela vida mas pela sua duração ou em quanto sofrimento ou felicidade subjetiva traz. Porém, o mais importante não é garantir poucas horas de vida a alguém. É defender um princípio, o que significa defender aqueles que ainda irão nascer, para que critérios arbitrários não lhes caiam sobre a cabeça e lhes tirem a vida.
O que fazer
Participe hoje da Vigília de Oração pela Vida na sua cidade. A Vigília foi convocada pela CNBB nesta Sexta-Feira da Paixão. Em Brasília, ela vai acontecer na Praça dos Três Poderes, em frente ao STF, a partir das 18h. O blog Vida Sim, Aborto Não! reuniu roteiros para vigília disponibilizados pela Arquidiocese de São Paulo e outras dioceses.
Sabe-se que a maioria da população brasileira é contrária ao aborto e às desculpas para aprová-lo a conta-gotas: é por isso que há muita pressão para que ele seja aprovado por outras vias fora das decisões democráticas. É preciso lembrar o país qual é o desejo da população.


